Receita de Bolo

Julho 2010 0 Comments por Sérgio Becker

Sempre lembro com água na boca da sobremesa preferida na infância, mas só hoje descobri a fórmula de um bolo de chocolate: farinha, ovos, chocolate em pó, leite, manteiga, açúcar e fermento. Tempo para assar: aproximadamente 30 minutos. E, pronto: delícia imediata e muita saudade depois.

Mas quanta farinha conseguimos comer de uma só vez? Quanto fermento? Dá para se entupir de açúcar puro ou manteiga? O segredo de um bolo saboroso é justamente a harmonia e o equilíbrio perfeito entre seus ingredientes. A falta, o excesso de um deles ou a pressa em terminá-lo farão, com certeza, a receita desandar.

A vida é um grande bolo de chocolate. Os ingredientes são vários: saúde, família, amigos, trabalho, lazer, cultura, vida pessoal, vida espiritual, estabilidade financeira e muito mais. A grande dúvida é: como dosar cada um? O problema é que não há receita pronta para se harmonizar isso. Livros de auto-ajuda até tentam, mas, via de regra, frustram seus leitores ávidos pela fórmula mágica por um motivo básico: a receita é sempre individual.

Há muitos exemplos de má dosagem dos ingredientes do bolo da vida:

Tenho conhecidos que vivem para o trabalho. Dizem que ter “dinheiro para uma velhice tranqüila” é sua meta. Entopem-se de fermento financeiro. Tudo se justifica pela segurança financeira no futuro. Atividade cultural, nenhuma (“chego muito cansado em casa”). Exames médicos, quando der tempo. Exercitar-se, sem chance (“não vou por causa do trânsito”). Tempo para amigos? Que amigos? Casamentos de fachada. Estar com os filhos, difícil; a solução é dar presentes no lugar da sua presença.

Sei de pessoas que se viciam em ginástica. Empanturram-se de fermento muscular. Em busca de um corpo definido (seja isso lá como for), passam 5 horas por dia correndo, levantando pesos, calculando índices de massa corpórea a cada instante, não raras vezes à custa de anabolizantes para acelerar o processo. Esquecem que o cérebro também precisa de exercício.

Sei de gente que vive para os outros. Enchem-se de açúcar existencial. Como açúcar, adoçam a vida dos outros e...nada mais. Não falo de seres especiais e iluminados – como um Nelson Mandela – que vieram para ajudar, compartilhar e fazer este mundo melhor. Refiro-me, por exemplo, às pessoas que só existem para os “afazeres do lar”. Confundem cozinhar, lavar, passar e limpar com viver.

Sei daqueles que só estudam. Fartam-se de farinha do saber. Fazem cursos e mais cursos, espalhando diplomas pelas paredes. Refugiam-se nos livros, na internet, nas bibliotecas. São verdadeiras enciclopédias ambulantes. Mas sem qualquer vida real pra contar, sem currículo de amor, sem medalhas de relacionamentos. Não tem diploma de vida vivida.

Sei dos que vivem de festa em festa, de viagem em viagem. Engolem ininterruptamente ovos de ouro. Conhecem tudo sobre grifes, shoppings e moda. Consomem sofregamente, sem fim. Sempre lhes falta algo por comprar. E sua necessidade de coisas jamais parece completa. Parece que ao consumir, consome-se. Na verdade, não sei a resposta de como harmonizar os ingredientes. Não conheço receitas de felicidade. Desconheço também o tempo de preparo dessa mistura mágica para uma doce existência. Como já foi dito, a resposta é exclusivamente individual. Cada um deve planejar, por em prática sua “fórmula” e estar sempre atento para não deixar sua receita de vida desandar. A minha própria é separar o que é VITAL, do que é IMPORTANTE e do que é apenas INTERESSANTE. Em todos os aspectos. Não me preocupar com a quantidade de tempo despendido, mas com a qualidade dele. E acabar com o que é desnecessário, a poluição de amigos de convivência, de trabalhos insuportáveis, de amores irreais, de vida de cenário. Assim, ao hierarquizar as prioridades, consigo gastar minhas energias apenas no que realmente vale a pena e buscar o equilíbrio sem o qual a vida é menos vivida. E o bolo não tem gosto de nada.

Gigolô das próprias dores

Junho 2010 0 Comments por Sérgio Becker

O que você faz quando está com dor de cabeça? Toma algo que alivie os sintomas, certo? E quando descobre que está com o colesterol muito alto? Melhora a dieta, faz exercícios e, com orientação médica, vai se tratar, obviamente.

Isso vale para uma crise existencial, uma perda, uma demissão: sempre buscamos um alívio, cura ou saída. E seguimos em frente.

Mas nem todos vão por esse caminho. Algumas pessoas cultivam suas doenças e dificuldades como um jardineiro o faz com suas rosas, como um colecionador o faz com suas peças mais nobres. Assim, usam desde uma diabetes, asma ou reumatismo a uma infância pobre, separação conjugal ou tropeço financeiro para uma vida de barganhas e chantagens. A limitação ou obstáculo passam a ser trunfo para usar os demais e justificativa para não ter que dividir a dor alheia, fazendo-se a si próprios de vítimas. Problemas se transformam num trampolim para mergulhar em uma piscina sem ética, num jeito malandro para se conseguir coisas, favores, dinheiro. Ou ainda para fazer os outros sentirem culpa (“pobrezinho, já penou tanto, vamos poupá-lo”...) ao necessitarem de sua colaboração e presença.

Vejo parasitas usarem muito essa tática. Como gigolôs das próprias dores, não querem que elas desapareçam: afinal, vivem de explorá-las. Conheci uma senhora que colocava a culpa de todas as suas dificuldades em seu ex-marido, de quem havia se separado... 30 anos antes! Sei de conhecidos executivos para quem não há freio moral para conseguir o que querem: afinal, “sofreram tanto vida afora” que tudo se justifica e lhes é permitido. É como se o alegado sofrimento lhes tivesse dado passe livre para serem nanicos em dignidade e caráter.

Pode não ser assim. Tenho um exemplo muito próximo: meu pai nasceu com o braço direito paralisado. Durante os 84 anos em que viveu jamais se queixou desta condição ou fez de suas enormes limitações no dia-a-dia (só para citar algo trivial, tente calçar suas meias ou cortar um bife com uma só mão) motivo para pedir vantagens ou despertar compaixões. Foi à luta e conseguiu seu espaço, consciente de que prazeres e dores fazem parte do enredo de todos, de que doenças e problemas são uma contrapartida mínima pelo presente que é estar vivo e do maravilhoso que é viver sem roubar a energia dos demais.